[YH-P.025] Supersimetria
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Água viva

“Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão
do instante-já que de tão fugidio não é mais porque
agora tornou-se um novo instante-já que também não é
mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. [...]
Quero possuir os átomos do tempo. E quero capturar o
presente que pela sua própria natureza me é interdito:
o presente me foge, a atualidade me escapa, a
atualidade sou eu sempre no já.”

É nesse preciso momento que Bastos enfatiza que a experiênciaartística se dá no âmbito do visível ou, de forma mais ampla, no dassensações, como demonstram também seus trabalhos sonoros e térmicos.Ela se constrói ainda a partir dos estranhamentos, das surpresas e dosparadoxos produzidos pela reflexão, pela atenção e pela duração queorbitam a percepção. Certos fenômenos acontecem para além daquilo quepodemos ver, colocando em xeque os sistemas pelos quais costumamosorganizar as coisas. Quando há informações demais, singularidadesdemais, a própria ideia de percepção como sistema colapsa. Resta a experiência em sua forma instável.

É nesse ponto que se abre, novamente,um ensejo agostiniano: a aspiração a um sistema que ultrapasse o queestá posto, a uma realidade mais intrincada que corresponda à própriarealidade. [3] Esta não pode ser inteiramente apreendida porsimplificações humanas; pode apenas ser vislumbrada de soslaio, quandona verdade é operada por entidades muito maiores — seja, no pensamentoagostiniano, de ordem teológica e divina; seja, na física departículas, de ordem física e quantificável. Uma coisa nunca é apenasaquilo que aparenta ser naquele instante: é também a soma potencial doque foi e do que pode ser, num entrelaçamento espaço-temporal eontológico, num atravessamento ideal e físico. O presente, sempre incapturável por já ter passado, aparece assim, em seu imediatismo e fugacidade, talvez mais abstrato do que o próprio passado e o futuro. A partir dessa condição, estabelece-se um eixo de simetria — ou, melhor, um operador de reflexão capaz de transformar matéria em força e força em matéria.

Bastos encontra, assim, uma evidência que permite aproximar aexperiência temporal que propõe do conceito de supersimetria: umahipótese da física teórica que estabelece uma correspondência entrepartículas de tipos diferentes, ampliando a simetria descrita peloModelo Padrão. [4] A ideia interessa ao artista por sugerir umarealidade em que entidades e estados aparentemente distintos podemparticipar de uma mesma estrutura. O emaranhado do passado e do futurotampouco obedece às representações da geometria euclidiana. O presente,por sua vez, parece responder a uma não-geometria, às variedadesalgébricas, coexistentes e intrincadas, da geometria diferencial. O queestá em jogo é uma forma de pensar a realidade para além das categoriasque a organizam, fazendo da própria tentativa de explicá-la umaoperação produtora de novos modos de compreendê-la. Entende-se, portanto, que esses métodos científicos, ao tentarem explicar a realidade, implicam uma nova realidade.

As intenções de Bastos estendem-se nessa direção. Buscam aproximarduas categorias aparentemente antônimas, a matéria e a dinâmica: ocorpo estático e as forças dinâmicas e incorpóreas que existem semcorpo e atuam sobre elementos de inegável corporeidade. Podemosvislumbrar, assim, que a natureza da forma que entendemos decorretambém das formas de pensamento que a categorizam e explicam.Compreendemos o mundo a partir de métodos e práticas necessariamentelimitados. A usual simplificação dos sistemas científicos à compreensão cognitiva humana, baseada em um sistema euro cêntrico, linear, binário, evolucionista e categorizante, cria também seu excesso: teses que extrapolam hierarquias e estruturas convencionais quando estas se mostram insuficientes.

Os diálogos que compõem I See Her, She Saw Me — o trabalho sonoro daexposição — retomam essa questão por outra via, entendendo a fugacidadedo tempo como estatuto formador da memória, sempre cambiante e, porisso, incompleta, ao mesmo tempo maior do que qualquer coisa jácompleta. Encontram a noção cartesiana de que a experiência humanaacontece em pontos específicos do tempo e do espaço e borram a leiturapasteurizada e dessensibilizada da experiência ao honrar cada uma desuas singularidades. A simetria, aqui, permanece sugerida: as duaspartes que conecta, assim como seu próprio eixo, não compartilham,rigorosamente, o mesmo estatuto ontológico. A diferenciação entre esses estados — as matérias e as forças, o agora e o não-agora, o natural e o artificial — reforça a íntima aproximação entre eles, sem que isso implique uma relação de igualdade.

Enquanto em Apparently Still os acontecimentos têm uma duraçãocurtíssima, em Drift Bastos opta por uma duração diametralmente oposta.Gotículas de água, formadas pela condensação da umidade do ar,depositam-se no centro de uma chapa de aço corten refrigerada. A obradesafia o espectador sob outro ângulo, ainda tensionando a própriaideia de duração: é necessário permanecer diante do trabalho por umlongo tempo para perceber seu mecanismo. Mais do que desvendar essemecanismo, importa que ele sirva de terreno fértil para que oespectador coexista intimamente com a obra. Bastos dialoga, nessesentido, com uma tradição da arte conceitual que se alimenta também dospenduricalhos que acompanham a obra, como o título ou a ficha técnica,capazes de ajudar uma mente ansiosa a desvendar o funcionamentopretendido de cada trabalho.
Ao mesmo tempo, afasta-se do uso desses elementos como dispositivosexplicatórios, reiterando que a atenção completa, o foco na experiênciae a relação estabelecida entre obra e espectador são suficientes para acompletude da experiência artística. A necessidade de propor estruturasque expliquem o funcionamento e a origem de tudo revela-se, assim,ineficaz. Essa forma de ver o mundo — tentar apreender tudo, tanto e muito ao mesmo tempo — resulta também em não ver nada.

Questionam-se, então, as imagens que parecem se reconhecer naspinturas: acontecem em escalas atômicas ou astronômicas? São imagens decorpos matéricos vistos ou diagramas que demonstram suas forças? Sãoficcionais ou tão reais que demonstram sistemas físicos? A distinçãoentre elas — entre pinturas e não-pinturas, entre o micro e omacrocósmico — não poderia interessar menos. Mais do que a simetriacomo ferramenta pela qual se sabe o que estará do outro lado de umponto, eixo ou plano, Bastos se interessa por sua capacidade deproduzir opacidade, de formar áreas imprevistas e incalculáveis fora dasingularidade da experiência. Interessa-lhe o alargamento das limitações matéricas e físicas até o ponto em que a distinção entre elas — entre pinturas e não-pinturas, entre o micro e o macro cósmico — não poderia interessar menos. Mais do que a simetriacomo ferramenta pela qual se sabe o que estará do outro lado de umponto, eixo ou plano, Bastos se interessa por sua capacidade deproduzir opacidade, de formar áreas imprevistas e incalculáveis fora dasingularidade da experiência. Interessa-lhe o alargamento das limitações matéricas e físicas até o ponto em que essas coisas se desfazem — ou desfazem aquilo que já está feito.

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