[YH-P.023] Samuel Alves de Jesus: Perpétuo
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Violência e Benção

Se pensarmos bem, não teríamos nada que esperar da terra e dos fenômenos físicos que nos cercam. Não buscaríamos respostas ou mesmo compreensão dos dilemas da vida e das dinâmicas materiais e sociais que a condicionam. Não estaríamos insatisfeitos e não recairíamos em jogos de prestígio e disputas retóricas. Veríamos a água descer da montanha, o choque das ondas nas pedras, e entenderíamos as forças de erosão como pura cintilância. Entenderíamos o estranho porém inegável caráter de comunhão que uma infiltração pode ter com a parede infiltrada.
É nesse lugar que vejo a obra de samuel alves de jesus acontecer. E pra isso, é preciso apontar um certo massacre que incide sobre as possibilidades de sensibilidades emergentes. Isso se dá por um universo de escassez e uma postura essencialmente composta por um cinismo ganancioso. Quando falo do bloqueio das sensibilidades emergentes falo das artes mas não apenas. É difícil não me remeter ao livro “ira e tempo”, de peter sloterdijk. Ele explica que “quanto mais a sociedade é apaziguada em seus traços fundamentais, tanto mais rico em cores se mostra o florescimento da inveja de todos contra todos.” Pois bem, nada disso é bonito, claro. Mas fico com duas questões. Primeiro, quais seriam esses traços fundamentais da sociedade? E em seguida, qual seriam as caminhos criados pela arte para lidar com as batalhas concretas e metafóricas que se impõe a cada um de nós?
A exposição de samuel me parece criar algumas hipóteses. Sobre os traços fundamentais, samuel me faz rever uma palavra chave contra a qual incide todo tipo de antagonismos: comunicação. Esse conceito passou a ser quantificado à exaustão, mas ainda guarda um lugar fundante nas relações. Samuel relembra que a comunicação não está nos meios mas centrada no corpo e nos efeitos abstratos e não metrificáveis que esse corpo revela.
Não existe uma promessa a ser cumprida. Nenhuma revisão a ser feita.
O trabalho ocorre apenas através de um senso de compromisso com o próprio artista e sua experiência física no mundo. Se considerarmos o desejo humano de interpretação e mais especificamente seu ímpeto narrativo manifesto tanto na arte quanto na política, veríamos aqui uma possibilidade de resistência a esse movimento essencialmente trágico da história. Se o trabalho se oferece ao campo da estética e ao debate cultural, não é para apontar caminhos. Esse desejo é nosso mas não do trabalho, não de samuel. O que ele tenta é proporcionar novos contextos para a ideia de presença, de materialidade e de comunicação.

Intimidade e imensidão

Conhecer um artista intimamente talvez signifique observar como ele distribui sentido entre os materiais. Perceber uma espécie de transferência que acontece de forma ao mesmo tempo enfática e discreta.
Uma canaleta atravessa a exposição conduzindo a água. Ela também conduz o olhar.
As obras não ocupam um espaço. Elas criam o espaço. Há arquiteturas cuja função é conter corpos; outras fazem aparecer forças que já estavam presentes. A água aparece como elemento capaz de reorganizar ambas. O fluxo das coisas torna-se hidráulico, cristalizando um sentido de perpétua instabilidade, tal qual as estalactites em uma caverna.
Esse espaço do acontecimento é caro para samuel. A comunicação é retomada aqui como transmissão entre matéria e espaço. Certos conjuntos ganham intimidade familiar. Sua escultura comparece e aparece no mundo, não como temática mas como como medida tirada através de si mesmo. Ela cataliza distâncias impossíveis entre o tempo primordial e o tempo banal. Toda intimidade possui uma escala própria.
Onde o trabalho chega é onde existe abertura para que ele possa abrigar-se. Cada lugar produz uma espacialidade inseparável de seus rituais de habitação. Não há espaço neutro. Toda ação qualifica um lugar; todo lugar devolve uma qualidade à ação. As pinturas parecem conhecer essa reciprocidade. Elas mudam a si mesmas.
Existe nelas uma recusa do ornamento. Como se toda superfície excessivamente resolvida escondesse uma mentira. O preço de escancarar a mentira é alto. Fala-se muito sobre coragem. Pouco sobre aquilo que a coragem exige que abandonemos.
O que se busca é uma experiência de completa naturalidade entre nós e a obra. Como olhar para o mar.
Te desejo paz na incerteza.
Enquanto boa parte da produção contemporânea se volta para superfícies sintéticas, dispositivos digitais e linguagens imateriais, samuel jesus retorna obstinadamente ao que é elementar. Não como nostalgia de uma natureza perdida, mas porque neles ainda subsiste uma potência de encontro. Sua pintura não representa a água; ela depende dela. A água corre, infiltra, dissolve pigmentos, modifica superfícies, evapora. Parte da obra pertence ao artista. Outra parte pertence ao tempo.
O trabalho pinga.
O trabalho sua.
Nada permanece completamente seco.
A água jamais desenha uma geometria estável. Sua forma depende da gravidade, da temperatura, da porosidade dos materiais, do intervalo entre um gesto e outro. Pintar com água significa aceitar que a secagem também pinta. A técnica deixa de ser domínio para tornar-se convivência.
A infiltração possui uma cor.
Verde musgo.
Há uma violência silenciosa na infiltração. Ela não rompe paredes; atravessa-as lentamente. A umidade não conquista um território. Habita-o.
Samuel trabalha com materiais elementares porque é neles que o mundo ainda resiste à interpretação. Louis hjelmslev chamava de “substância da expressão” esse conjunto de materiais anteriores à linguagem organizada: a tinta antes da cor, o murmúrio antes da palavra, a vibração antes do significado. Talvez seja justamente aí que sua obra se instale, num ponto em que a matéria ainda não foi totalmente capturada pelo discurso.
João Paulo Quintella

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