[YH-P.001] Luisa Brandelli: Animais Domésticos
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[Luisa Brandelli: Animais Domésticos]

A razão persegue a verdade, a verdade busca o universal, mas o desejo volta-se sempre ao imediato e ao possível—e é dessa disjunção que nasce o conflito: aquilo que agrada aos sentidos raramente coincide com o que a razão reconhece como belo. Se a obra de Luisa Brandelli fosse uma parte do corpo, seria aquela pele interna da boca, território entre o visível e o invisível; se fosse um momento, seria o instante exato em que uma lágrima solitária hesita no canto do rosto antes de cair, ou quando o rosto cora. Seus objetos não são a obra; são pretextos para um trabalho que acontece inteiramente no ato de olhar. O que interessa não está na curva da tampa ou no brilho do fio cintilando no tecido, mas no gesto de domesticação do olhar que esses materiais provocam. Brandelli não seduz—ela treina. Há aqui uma repetição obsessiva, quase compulsiva: cada objeto retorna, cada gesto se refaz, como se a artista estivesse presa num ciclo de tentativas de congelar algo que insiste em escapar. Essa obsessão pela repetição não é acumulativa, mas erosiva—desgasta o próprio ato de olhar até que reste apenas o esqueleto do desejo. Existe um anseio misterioso inscrito na lógica desses trabalhos: esconder a beleza para depois revelá-la, guardá-la como quem espera para devorar. Suas criaturas confundem deliberadamente pintura e escultura, recusando classificação não por excesso, mas por uma ausência calculada que se traveste de sensualidade. Os materiais—cartão, glitter, tecido—falam de fragilidade, mas também de um gesto que ridiculariza a própria noção de preciosidade ao mesmo tempo que a reivindica. Há tensão entre estrutura e desintegração, entre o impulso em direção ao transcendente e a recusa em abandonar a superfície. Como se a alma aqui se deleitasse primeiro nos bens menores, confundindo brilho com luz, repetindo o erro até que ele se torne método. Por um ano ela observou essa fotografia de uma casal desconhecido, que encontrou na rua. Por uma ano ela observa o amor, e é esse amor que domestica seu trabalho, esses inanimados animais selvagens e sozinhos.

  • Matheus Yehudi Hollander
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