Manual of Action
A obra de Kembra Pfahler nasce do impulso. do impulso de transformar o corpo, produzir ruído, inventar personagens e desobedecer às formas que nos são dadas. há mais de quatro décadas, a artista norte-americana constrói sua linguagem nesse movimento contínuo de contaminação: uma experiência torna-se canção; uma canção, em desenho; um desenho, em personagem; um personagem, em performance. nada permanece muito tempo em seu lugar. tudo parece existir para ganhar outra forma.
É esse organismo em permanente transformação que Kembra revisita em manual of action, exposição inédita, em cartaz na Yehudi Hollander-Pappi. pela primeira no brasil, a artista multidisciplinar e musicista se debruça em 54 canções que escreveu para the voluptuous horror of Karen Black, banda e projeto performático criado em 1990 e inseparável de sua trajetória, para produzir um desenho a partir de cada uma delas. são músicas atravessadas por diferentes momentos de sua vida — a mãe, o pai, amizades, encontros e acontecimentos — que fazem da mostra uma espécie de autobiografia fragmentada. não uma retrospectiva organizada cronologicamente, mas uma vida inteira reativada por imagens, sons e lembranças.
Tudo no universo de Kembra nasce das canções: os objetos, as esculturas, os figurinos, as atuações. o desenho não ilustra a música: ele é outra possibilidade de existência daquilo que um dia foi som. talvez por isso ela os descreva como temperamentais. às vezes, conta, sua mão simplesmente paralisa. “eu não consigo desenhar a menos que o desenho queira nascer.” há algo de performático também nesse gesto. Kembra desenha os corpos de Karen black em performance e, depois, torna-se esses corpos. a imagem antecede a ação e a ação retorna à imagem.
Para compreender esse movimento é preciso retornar ao final dos anos 1970, quando Kembra chegou ainda muito jovem a Nova York, trazendo consigo o impacto da primeira onda punk de Los Angeles. Aos 15 anos, em uma primeira viagem à cidade, conheceu clubes e espaços que a aproximaram da música experimental e da performance — e que a levaram à school of visual arts. sua proximidade com artistas, entre eles o cineasta lituano Jonas Mekas, aprofundaria ainda mais uma pesquisa que nunca reconheceu limites entre cinema, música e imagem.
É nesse território que surge, em 1990, the voluptuous horror of Karen Black. Kembra transforma o palco em um lugar onde sua produção multidisciplinar acontece simultaneamente. pinturas corporais, perucas, próteses, saltos, glitter e objetos construídos à mão produzem uma imagem levada deliberadamente ao excesso. a artista exagera códigos historicamente associados à feminilidade até fazê-los perder sua estabilidade. beleza e monstruosidade deixam, assim, de ocupar lados opostos. o grotesco, em Kembra, não deforma: liberta-a da obrigação de permanecer reconhecível.
Essa recusa das formas estabelecidas atravessa também o método que ela denominou availabism: fazer arte a partir daquilo que está disponível. utilizar o que existe ao redor, construir os próprios figurinos e cenários, trabalhar com materiais simples, reunir pessoas e produzir sem esperar que existam condições ideais para isso. mais do que uma estética “faça você mesmo” herdada do punk, o availabism tornou-se uma ética que atravessa sua produção e que ela ensina há décadas: criar não a partir da falta, mas da possibilidade.
Em manual of action, essa ética ultrapassa os desenhos e alcança o próprio espaço expositivo. kembra chegou ao brasil disposta a encontrar aqui parte da exposição: recolher materiais ao redor, construir objetos e cenários e permitir que são paulo interfira naquilo que começou a imaginar em nova york. o trabalho permanece, assim, deliberadamente aberto ao encontro e ao acaso. há uma coincidência especialmente potente em sua primeira exposição no brasil: manual of action encontra abrigo em uma arquitetura concebida por flávio de carvalho. décadas antes de kembra transformar seu próprio corpo em campo de experimentação, flávio já compreendia roupa, arquitetura e comportamento como territórios inseparáveis da performance. em suas experiências, vestir-se podia constituir um gesto de insubordinação; caminhar pela cidade, uma ação artística; confrontar convenções sociais, uma maneira de revelar aquilo que permanecia escondido sob a normalidade.
Manual of action carrega, no título, a aparência de uma instrução. mas o manual de Kembra não ensina como agir. talvez apenas nos lembre que toda transformação começa por uma ação. desenha, constrói, canta, veste, pinta o corpo, reúne pessoas e continua defendendo uma ideia radicalmente simples: para criar um mundo diferente, talvez seja necessário começar com aquilo que temos ao alcance das mãos. Um corpo. Um espaço. uma canção. um pedaço de papel. E a possibilidade de fazer deles outra coisa.