Julia Gallo: PRIMEIRA FEBRE
. Da Ebulição
Tudo Começa Com Um Embrião, Como Julia Os Chama: Formas Que Surgem Em Resposta, Talvez, Ao Estado De Ânimo De Seu Próprio Corpo. Esses Primeiros Gestos, Mais Do Que Intuitivos Ou Inconscientes, São Informados Por Seus Estudos Em Desenho E, Sobretudo, Por Seu Interesse Em Anatomia. Corpos Que Podem Ser Humanos, Não Humanos, E Mais Que Humanos. Anatomias Inventadas Em Estado De Ebulição Partem Da Observação Profunda Do Outro, Para Depois Retornarem A Si.
Seu Trabalho, Que Mantém Uma Relação Originária Com O Desenho, Começa Numa Das Técnicas Tradicionais: O Desenho A Carvão. Em Grande Escala, As Linhas De Forte Movimento E Presença Inscrevem Corpos Que Nunca Foram Os Da Realidade Exterior, Mas Daquilo Que Ferve Sob A Couraça. Uma Expressividade Quase Crua, Ainda Pré-Forma, Transforma O Corpo E O Entrelaça De Maneira Primordial Com Outros.
A Partir De Encontros Com O Acaso, Os Trabalhos De Gallo Passam Por Uma Série De Mutações Que Se Acumulam E Coexistem. Após Um Derramamento Acidental, Ela Começa A Preparar O Papel Com Café E A Adicionar Água Ao Carvão. Nas Novas Imagens, Em Tons De Sépia E Pretos Diluídos, O Elemento Aquoso Circunda Os Corpos, Submergindo-Os Ou Contendo-Os. Em Seguida, O Recorte Torna-Se O Novo Embrião. A Partir Da Antiga Brincadeira De Dobrar O Papel, Recortá-Lo E Abri-Lo, Emergem Formas Sugeridas Pelo Corte, Duplicadas Por Uma Simetria Livre.
Em Seus Trabalhos Mais Recentes, Julia Começa A Corporificar As Imagens. Embora Seus Desenhos Já Tivessem Uma Tridimensionalidade Latente E Um Corpo Próprio, Aqui A Pele Ganha Carne. Trabalhando Com Folhas De Alumínio, Encontradas Em Suas Pesquisas Por Materiais E Que A Remetem Às Primeiras Criações Da Infância Com Papel Alumínio, Ela Cria Texturas E Recortes, Construindo Corpos Completos, Ou Vestígios Da Troca De Pele. Herdeiras Das Experimentações Anteriores E, Em Verdade, Concomitantes, Os Corpos Transitam De Uma Técnica Para Outra, Alterando Sua Textura E Volume.
A Abertura Ao Outro, O Elemento Aquoso Que Cria Uma Espécie De Placenta Para Os Embriões, O Entrelaçamento Dos Corpos, O Cordão Umbilical. Sob O Calor Da Fervura, Tudo Vai Apontando Para Uma Fusão, Uma Simbiose Em Que Já Não Se Distingue O Que É Um E O Que É O Outro.
. À Ruptura
Somos Recebidas No Espaço Por Dois Desenhos A Carvão No Alto. Corpos Antes Renascentistas, Agora Deformados. O Início Do Derretimento E Da Fusão. Ao Passar Pela Segunda Porta, Amplia-Se O Teto E O Espaço Se Abre. Atrás De Nós, No Alto Da Entrada Recém Atravessada, Duas Figuras Espelhadas Às Anteriores, Com As Quais Formam Um Conjunto. Sua Fisionomia É Diferente Das Anteriores. No Negativo, Brancas Sob O Preto, Parecem Emitir Seus Últimos Respiros Febris.
Seguindo, Diante De Nós, Quase Como O Cristo Acima Do Altar, Uma Obra De Grandes Dimensões Pende Do Teto. Nela, Os Corpos Já Estão Em Estágio Avançado De Metamorfose, Fundidos, Onde A Amálgama De Membros Começa A Criar Um Novo Ser.
Passamos Mais Uma Abertura, E Nos Deparamos Com Uma Armadilha. Herdeiros Talvez Do Procedimento De Recorte E Mantendo Uma Simetria Instável, Um Corpo-Sapo-Criatura Solta Uma Espécie De Teia-Água E Prende-Submerge Outro Corpo Em Sua Emboscada. A Armadilha, Porém, É Dupla: Acima De Nós, Um Novo Corpo-Sapo-Criatura De Menores Dimensões Repete A Cena E Ameaça Nos Capturar Desprevenidas.
Da Armadilha, Chegamos Perto Da Morte. Na Parede Ao Fundo, Uma Obra Diferente Das Outras, Vertical E Retangular. Feita Com Carvão E Pincel, Ela É Preenchida Pelo Preto E O Desenho É Sugerido Apenas Pelas Pequenas Aberturas De Luz. Uma Figura Mais Densa E Assombrosa Se Deixa Entrever Apenas O Suficiente Para Nos Aterrorizar: O Perigo De Testemunhar, Na Ebulição, O Fim De Si. A Imagem Do Fim, Porém, Convive Ao Lado Com A De Um Novo Início. À Direita, Duas Figuras Flutuam Sob A Escada Ligadas Por Um Fio, Um Cordão Umbilical Que Em Breve, Porém, Deverá Ser Cortado.
No Piso Superior, Duas Obras. Na Primeira, De Grandes Dimensões E A Carvão, Corpos Enroscados Se Torcem Pela Tela Em Movimento Circular, Ecoado Pela Segunda, Em Folhas De Alumínio, Em Que Dois Corpos Parecem Girar, Dançar Ou Cair. Força Centrífuga Que Os Descola E Os Lança Para Fora De Um Mesmo Eixo.
Nos Delírios Da Quentura, Algo Irrompe. O Corte Do Cordão Umbilical, A Troca De Pele, A Perda De Si. Os Corpos Que Se Oferecem À Constante Metamorfose Acabam Por Girar Em Direções Opostas E Se Perdem Uns Dos Outros. A Fusão Não É Um Estado Final, Mas Conduz Inevitavelmente A Um Ponto De Fissura. Após A Dissolução, Uma Nova Individuação Se Anuncia.
Catalina Bergues